15) Lodjong: Bodhicitta relativo (A vida como via)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Cultivar bodhicitta relativo
IV – BODHICITTA RELATIVO
Vimos bodhicitta último enquanto experiência directa e imediata; Vimos também a prática do rappel como o regresso a instantes de bodhicitta último; vamos continuar agora encarando bodhicitta, o espírito desperto, na sua dimensão muito mais corrente, relativa e relacional. É a atitude de espírito justa nas situações relacionais da vida quotidiana.
Como desenvolver bodhicitta, o espírito desperto, nas situações relacionais, quando estamos com os outros? Bodhicitta relativo é antes do mais fundado sobre uma qualidade de doçura, de ternura, de benevolência, que é o fundamento desse coração nobre, dessa nobreza de coração que é a compaixão. E esta desenvolve-se na prática de tonglen. É um termo tibetano: «tong» significa enviar, ou também soltar, e «len» significa receber, por vezes dizemos tomar.
A vida como via
Antes do mais, é muito importante realizar que a prática do Dharma é a aprendizagem de uma relação justa, a aprendizagem de uma experiência justa, de um modo de ser justo, em cada instante, isto é em cada situação.
A justeza desse estado de ser, dessa relação, não vem da adequação a um manual ou a referências que nos tenham sido dadas; isso seria uma atitude formalista e, eventualmente, dogmática.
O que faz a justeza da nossa atitude, da nossa prática, é o facto de abordar as situações desprovidos de agressividade, de paixão, isto é livre das tendências habituais do ego. A justeza da nossa presença é proporcional à nossa capacidade de não investir numa situação os nossos impulsos egóticos.
Essa atitude vai-se desenvolver no não funcionar de maneira egocentrada e no aprender a ter uma relação em que, em vez de se estar centrado sobre si, egocentrado, esteja centrada sobre os outros «Alocentrada».
É verdadeiramente importante ver que tudo está na relação com os acontecimentos, com as pessoas e com as situações.
Não são as situações em si mesmas que são positivas, negativas, agradáveis ou desagradáveis, mas a forma como as abordamos.
É o tipo de relação que iniciamos com as situações que lhes dá a sua coloração e, eventualmente, que é fonte das dificuldades que encontramos. É assim que criamos a nós mesmos, constantemente, as causas dos nossos próprios problemas. Investindo nas situações a nossa confusão, as nossas ilusões e as nossa paixões, conseguimos transformar perpetuamente situações fundamentalmente simples num imbróglio inextricável.
A prática do Dharma, a prática da meditação é a aprendizagem de uma relação justa à alteridade, aos «outros em nós»: os nossos pensamentos, as nossas emoções, nós mesmos… e à alteridade exterior; os outros e todas as situações.
Se temos bodhicitta, essa atitude justa, todas as nossas acções e gestos quotidianos, quaisquer que eles sejam, tornam-se o «ouro da prática». É por isso que bodhicitta é frequentemente apresentado como a pedra filosofal no sentido que aquele que o tem, transforma em ouro da prática tudo o que encontra.
Nada mais é vil, inoportuno, inadequado: todas as situações tornam-se «tratáveis» e podem ser utilizadas, integradas, tomadas como suporte do caminho.
Um ponto muito importante é o de aprender a ver o estado do nosso espírito e reconhecer, quando estamos numa situação, o nosso estado mental nesse momento.
Estamos num estado colérico? Estamos num estado de paixão? Estamos num estado de opacidade? De inveja ou de avidez?
Trata-se de se estar consciente do estado do nosso espírito no instante presente e, eventualmente, da coloração emocional, afectiva deste.
A possibilidade de o fazer começa com uma qualidade de atenção e de vigilância; é também essa vigilância que nos permite conservar as instruções presentes no espírito e aplicá-las, É por isso que a prática de samatha, que visa desenvolver essa atenção e essa vigilância, é muito importante e constitui uma base ao mesmo tempo que uma preliminar.
(continua…)
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