19 de fevereiro de 2010

Lodjong II

2) Lodjong: Mudar a nossa mentalidade

Homenagem à imensa Compaixão

As preliminares, bases do ensinamento.

Djodang.
Prefácio: Esta primeira máxima é composta por uma breve introdução, seguida das 4 ideias fundamentais, e por fim a conclusão com a série de perguntas/respostas.

1 - Começa por praticar as preliminares
a) As preliminares nos ensinamentos: As Quatro Noções Fundamentais
b) As preliminares a uma sessão de prática


II – AS PRELIMINARES (continuação)
Mudar a nossa mentalidade.
Como vimos, a prática do Dharma propõe-nos mudar de mentalidade, mudar a nossa relação connosco próprios e com os outros, o que é também mudar o nosso modo de pensar, o nosso modo de ser e, finalmente, mudar a nossa vida.
Poderíamos distinguir três níveis: primeiro mudar a nossa forma de pensar; em seguida, nessa mudança de estado de espírito, descobrir a possibilidade de uma nova relação com os acontecimentos, com as situações, com os outros e connosco próprios; e este novo relacionamento leva-nos a uma qualidade de ser diferente e, finalmente conduz-nos a uma vida diferente. Mudar a nossa maneira de pensar, a nossa mentalidade é o propósito das preliminares comuns.
Estas preliminares são os meios de transformar, de mudar a nossa mentalidade habitual, de mudar a sua orientação. Reflectir sobre estas quatro ideias incita-nos a abandonar todos os tipos de actividades fúteis e ajuda-nos a descobrir uma nova liberdade que nos permite investir naquilo que vale verdadeiramente a pena fazer
Trata-se de descobrir uma mentalidade "orientada para o despertar" e de abandonar uma mentalidade "samsárica" regida pelas paixões, pelos apegos e todos os tipos de fixações. Este trabalho é um trabalho de libertação face aos nossos apegos: àquilo que nos manieta e nos possui habitualmente.

Normalmente não governamos realmente a nossa vida: somos possuídos por ela. Os acontecimentos encadeiam-se, e somos "agarrados lá dentro”. Aqui trata-se de descobrir a possibilidade de uma atitude não apegada ou, numa primeira fase, menos apegada. Os apegos são aquilo que nos ligam, no sentido literal, é óbvio: um apego é um laço. A questão é descobrir mais liberdade dissolvendo um certo número de ligações e, nesta libertação, encontrar o tempo, a energia e a motivação para governar a nossa vida com referências fundadas no essencial.
O ponto de partida consiste em questionarmo-nos sobre o que vale verdadeiramente a pena ser feito. Existe alguma coisa que mereça que lhe consagremos a nossa vida? Podemos dar inúmeras respostas a esta pergunta, mas o facto de ir ao fundo do problema de procurar uma verdadeira resposta, é o essencial. É fundamental tentar, através de uma interrogação, uma investigação profunda, pormo-nos em causa, pôr em questão a nossa forma habitual de funcionamento, as nossas referências e os nossos valores, e questionarmo-nos sobre o que há de essencial neles. Este exame convida a confrontarmo-nos com a nossa realidade e a ser verdadeiramente honestos e sinceros. Não se trata apenas de reflectir intelectualmente – o conteúdo intelectual daquilo que vamos abordar é muito simples – trata-se de um pôr em causa as nossas atitudes/hábitos e de uma tomada de consciência real da situação.


As quatro ideias (noções) fundamentais.
Quatro reflexões, quatro meditações têm o poder de mudar a nossa mentalidade: de nos fazer largar todo o tipo de preocupações mais ou menos fúteis e de encontrar a liberdade que permite consagrarmo-nos ao essencial. São muitas vezes chamadas "as quatro ideias que mudam a nossa mentalidade" ou “as quatro ideias fundamentais".
Estas quatro meditações são a tomada de consciência da «preciosa existência humana», da «impermanência e da morte», da «realidade do karma», das causas e das consequências dos actos, e do «carácter insatisfatório do samsara», ou seja, do ciclo de existências condicionadas. Estas quatro meditações são fundamentais, pois é sobre elas que uma prática
verdadeira se pode apoiar.
Elas são frequentemente apresentadas como as fundações do ensinamento. Se não existirem estes fundamentos, a nossa prática do Dharma é como que construída sobre areias movediças ou sobre um lago gelado: leva algum tempo, mas quando chega o degelo, o edifício desmorona-se. Se não tivermos consciência destes quatro fundamentos profundamente enraizados em nós, a nossa prática do Dharma será instável e será varrida no dia em que surgirem quaisquer circunstâncias adversas.
Kyabdjé Kalou Rimpoché insistiu enormemente sobre estas quatro meditações. Disse mesmo:
"Se Atisha foi chamado o mestre do refúgio e de bodhicitta, vós podeis chamar -me o das quatro ideias fundamentais".
Escreveu também que:
"Na ausência de uma verdadeira experiência destas quatro tomadas de consciência, podemos praticar o Dharma durante anos sem que nele penetremos realmente."
Estas quatro tomadas de consciência são fundamentais não só para transformar a nossa mentalidade, mas também para nos suavizar, para nos tornar permeáveis ao ensinamento e para nos permitir largar todo o tipo de coisas às quais estamos habitualmente agarrados. É o que nos vai tornar disponíveis, receptivos ao ensinamento. Ao mesmo tempo, estas quatro ideias permitem também encontrar a inspiração que nos incita a consagrarmo-nos à prática plenamente e sem desvios.
Não-apego e suavidade
Na curta invocação de Vajradara é dito:
"O não-apego constitui as pernas da meditação. Ao que meditante, que sem estar possuído pelos alimentos e pelos bens, corta os laços que o apegam a esta vida, inspirai o não-apego às posses e honras."
Os obstáculos que impedem que nos empenhemos verdadeiramente no essencial são os apegos. As quatro ideias fundamentais vão permitir-nos descobrir o não-apego.
Não se trata de nos desapegarmos rejeitando todo o tipo de coisas, mas ao meditar longamente sobre estas ideias, a nossa mentalidade muda e deixamos de ter os mesmos interesses. Então, naturalmente o nosso espírito desapega-se das coisas que nos fascinavam e somos impelidos a seguir um outro modo de vida.
Esta evolução não exige uma atitude agressiva, de rejeição, em que diríamos: "A partir de hoje vou ser uma pessoa espiritual e abandono, rejeito todo o tipo de vaidades." Uma atitude auto-agressiva, que pode mesmo tornar-se auto-punitiva, não é o estado de espírito adequado.
Se praticamos assim, violentamo-nos, privamo-nos, frustramo-nos e frequentemente acabamos mesmo por desenvolver uma atitude muito presunçosa e pretensiosa. "Vejam como eu sou bom, abandonei isto, abandonei aquilo, fiz isto, fiz aquilo!” "
O que então se pretende é uma mudança de mentalidade com suavidade. Ser suave não é ser complacente, indulgente, mas abandonar naturalmente alguma coisa que sabemos ser fonte de sofrimento. A mudança faz-se a partir do interior, através de uma tomada de consciência: compreendemos que uma mentalidade não é sã, que é mesmo fonte de problemas e de sofrimentos, e desinteressamo-nos disso naturalmente.
O objectivo que se pretende é perceber que ser regidos por uma mentalidade "samsárica" com as habituais formas de funcionamento, não é bom. Nesse momento o investimento neste tipo de mentalidade e de funcionamento diminui naturalmente. E é a meditação sobre estas ideias que provoca esta conversão, estas mudanças, estas transformações.

(Continua…)

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