) Lodjong: A prática principal
(introdução)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Introdução:
III – BODHICITTA ÚLTIMO
A nossa atitude habitual
Habitualmente vivemos constantemente no jogo das nossas projecções. O nosso karma, as impressões latentes no nosso espírito, condicionam a nossa percepção do mundo e não percebemos nunca a realidade, o «real tal qual», mas o resultado de uma interpretação do real condicionada pelo nosso karma. O real passa através do filtro deformador do nosso mental habitual. Projectamos sobre a realidade todos os tipos de noções, de aparências, e em vez de perceber o real, não percebemos senão a nossa versão.
Vivemos assim numa espécie de bolha, de esfera, connosco ao centro e o nosso mundo à volta. Cada um tem a tendência de viver na sua esfera e há mais ou menos encontros, interpretações; isso depende da opacidade da esfera…
Esta atitude tem qualquer coisa por um lado de problemática, de conflitual mas também de tranquilizadora: temos o nosso pequeno mundo e ficamos tranquilos lá dentro, sossegados. A aprendizagem espiritual propõe-nos que aprendamos a abrir esse pequeno mundo, a nossa bolha. É a descoberta e a prática da abertura.
Quando abrimos essa bolha, ou num primeiro tempo, quando os limites desta se tornam mais permeáveis, há tão mais intercâmbio com o outro e participação na energia fundamental do real. É do intercâmbio que vem a energia de compaixão e de amor: a abertura traz uma possibilidade de comunicação desprendida que é o fundamento do amor e da compaixão.
Podemos também notar que uma receptividade ao outro, uma atitude amante, incita-nos a comunicar com e a abrir-nos a ele. É assim que o amor propõe a abertura e que a abertura traz uma comunicação amante.
O coração-espírito desperto último e relativo
O coração do ensinamento do mahayana pode-se resumir à descoberta e à prática de bodhicitta. Bodhicitta é uma palavra sânscrita. «Bodhi» significa despertar e «citta» significa espírito ou, como vimos antes, coração-espírito.
Bodhicitta tem dois níveis; um nível último e um nível relativo.
O nível último de bodhicitta é uma experiência para lá das relações, uma experiência imediata não dualista; e bodhicitta relativo é uma atitude de compaixão fundada sobre o abandono das fronteiras do nosso território. Cultivar bodhicitta ao nível relativo é, no seio de uma experiência dualista, a aprendizagem de uma relação que não seja conflitual, passional e egocentrada. É comunicar de uma forma atenta e doce.
Na progressão, há uma evolução e treinamo-nos geralmente primeiro no bodhicitta em situação relacional para, depois, descobrirmos a experiência de bodhicitta último. Aprendemos a ser receptivos aos outros, a sermos tocados pelos outros, a sair da concha ou da bolha do nosso pequeno eu desenvolvendo uma atitude de compaixão verdadeira e, essa abertura aprofundando-se, desenvolvendo-se, torna-se uma premissa à experiência de não-ego. Quando a experiência de não-ego se tornou uma realidade, quando é realizada, é então a experiência de não-eu, de vacuidade, bodhicitta último.
É importante ver bem que a compaixão se encontra no princípio, no meio e no fim do caminho. Não se trata particularmente de se estar desperto para depois se ser compassivo. Será antes o inverso. Trata-se de primeiro ser-se receptivo aos outros, de ultrapassar através disso as fixações egocentradas, depois, nessa abertura, descobrir o sentido profundo do aberto, da não referência, que é finalmente a realização da vacuidade. E nessa realização da vacuidade exprime-se em estado último a forma mais profunda da compaixão: a compaixão sem referência de um Buda.
Assim, a experiência, a realização da vacuidade é o lugar da compaixão mais profunda: uma compaixão para lá das noções habituais de amante e de amado, de alguém que ajuda outro.
A via do bodhisattva
Desenvolver bodhicitta é a prática do bodhisattva. Os ensinamentos do mahayana, do grande veículo ou do veículo universal, são fundados sobre o ideal do bodhisattva: consagrar-se aos outros, consagrar-se ao mundo com compaixão e abertura, com amor e sabedoria.
O bodhisattva toma consciência da quantidade de problemas, de confusões, de sofrimentos, e não fica indiferente a isso mas sente-se impelido e tenta fazer qualquer coisa. O voto de bodhisattva é a expressão da nossa determinação em trabalhar com toda a confusão e problemas onde quer que estes estejam e quaisquer que sejam… O que não quer dizer que vamos transformar tudo neste instante, mas que temos essa motivação que é uma atitude de compaixão autêntica. É nesta atitude de compaixão que realizamos profundamente o que é bom, vantajoso, útil tanto para os outros como para nós próprios.
Esta atitude de bodhisattva, que é a que nos propusemos descobrir, requer um estado de espírito corajoso, Como acabámos de ver, nós estamos habitualmente na nossa pequena bolha, fechados, dobrados sobre nós mesmos, mas ao mesmo tempo tranquilos, «no quentinho». A atitude do bodhisattva pede que demos um passo no aberto, que aprendamos a sair dessa bolha, que aceitemos ser expostos ao desconhecido, a situações novas, imprevisíveis e que abandonemos a nossas pequenas referências comuns para, de maneira corajosa, avançarmos para o aberto, ao encontro do outro, dos outros, da realidade. É uma descoberta sem a priori, sem preconcepções.
Sabemos que é possível, outros fizeram-no antes de nós, trazem o testemunho disso e encorajam-nos, ajudam-nos. É possível, mas isso exige da nossa parte essa coragem e essa temeridade.
O coração-espírito desperto na prática de Lodjong.
A prática de Lodjong é uma abordagem extremamente prática para inscrever bodhicitta na vida quotidiana. Ela propõe-nos um conjunto de pontos de atenção, de conselhos e de instruções que constituem uma abordagem meditativa prática. Trata-se da essência do mahayana aplicada.
Vamos ver como é que esta aprendizagem se articula à volta de bodhicitta último e de bodhicitta relativo. Não importa em que situação da nossa vida, bodhicitta último vai ser uma experiência de transparência, um instante no qual a situação cessa de ser sólida, congelada: um instante de deixar fluir, de abertura e de transparência.
Bodhicitta relativo vai ser a aprendizagem duma atitude na qual invertemos, trocamos as prioridades habituais do ego. Aprendemos a pôr o outro no nosso lugar e a pormo-nos no lugar do outro. Invertemos as prioridades egoístas habituais e desenvolvemos nas situações relacionais uma benevolência, uma compaixão, uma qualidade de doçura e de amor no sentido profundo.
A aprendizagem do espírito começa por nos introduzir a bodhicitta no seu aspecto último. É uma introdução imediata.
Há para isso várias razões. Entrever certos aspectos de bodhicitta último pode ser uma base sã para uma prática de bodhicitta relativo. Por outro lado, percebendo as dificuldades de bodhicitta no seu aspecto último, podemos ser muito mais receptivos à necessidade da prática de bodhicitta no seu aspecto relativo.
Podemos também dizer a nós próprios que nós partimos do absoluto porque partimos do que está cá, fundamentalmente. Partimos do princípio, o que parece de facto lógico. O coração-espírito desperto, o despertar em toda a sua perfeição, já cá está; e ele é mesmo o fundo da nossa experiência, o fundo do nosso espírito. Não só temos a semente do despertar, como temos mesmo já todo o despertar imanente. Não se trata tanto de fazer horticultura, de regar estas sementes, de lhes dar adubo, um hortelão, de as podar…
Não se trata tanto de puxar pelos rebentos para os fazer crescer mas de realizar que a árvore na sua plenitude já cá está. No bodhicitta absoluto há uma dimensão fundamental de não-esforço, de não-agir. É o não-agir das concepções. Descansem-se das concepções, relaxem-nas e nesse momento há um instante de abertura, de clareza e de receptividade-disponibilidade que é um instante de coração-espírito desperto absoluto.
A chamada de atenção
Na nossa experiência habitual este coração-espírito desperto absoluto já aqui está, mesmo se está velado, enevoado, cheio de parasitas; pode estar aqui de uma forma muito mais plena sempre que façamos este instante de pausa, de relaxação radical das concepções e que entremos na experiência de abertura, de clareza e de sensibilidade. É o que aprendemos a fazer na prática da chamada de atenção.
A chamada de atenção não é conceptual: é voltar a esta experiência. As chamadas de atenção são momentos onde nos «despendemos». São momentos de entrega radical e partimos para as encontrar ao longo das nossas actividades quotidianas, cada vez mais frequentemente com a aprendizagem. Estes momentos de chamada de atenção são a inspiração do coração-espírito desperto último. Esta inspiração pode animar outras formas de práticas a um nível mais habitual, isto é conceitual e fazer-nos viver com uma dimensão de coração, com uma dimensão de experiência muito profunda. Partimos assim do coração-espírito desperto absoluto: ele é fonte de inspiração.
Entramos na sua presença por estas experiências repetidas e ao mesmo tempo damo-nos conta também da necessidade de uma outra prática mais simplesmente em relação com as situações relacionais da nossa vida habitual. Este será o coração espírito desperto ao nível relacional que desenvolveremos mais de seguida.
(continua)
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