26 de março de 2010

Lodjong VII

7) Lodjong: As preliminares (conclusão)
Homenagem à imensa Compaixão
As preliminares, bases do ensinamento.
Djodang.

1 - Começa por praticar as preliminares
a) As preliminares aos ensinamentos: As Quatro Noções Fundamentais
b) As preliminares a uma sessão de prática
II – AS PRELIMINARES (continuação)
Mudar a nossa mentalidade.
Conclusão
O texto diz-nos de seguida;


“Assim, cortando os apegos, eu vou praticar com energia.”
A meditação nas quatro ideias fundamentais, com a transformação de mentalidade que ela traz, permite desenvolver a “renúncia”. Renunciar não quer necessariamente dizer que seja preciso abandonar ou rejeitar tudo o que fazemos habitualmente; a renúncia consiste em desenvolver, em relação às actividades que nos dominam normalmente, uma liberdade interior que trará também uma liberdade exterior. Entende-se por renúncia: não se ser possuído pelas possessões, pelos amigos, pelas situações, pelas pessoas, pelos factos e atitudes da vida comum.

A meditação nessas quatro ideias relativiza aquilo em que estamos habitualmente implicados e oferece-nos uma liberdade que nos permite, como já dissemos, recentrar-nos no que é verdadeiramente o mais essencial.
Estas quatro ideias fundamentais trazem uma disposição interior que é o não-apego. Mais uma vez, cortar os apegos não é “rejeitá-los”, mas “abandoná-los”, desinteressar-se deles.
Estas quatro ideias são para ruminar, para repisar, para repetir… Elas permitem encontrar, no quotidiano, a disciplina indispensável a um caminho efectivo. Se não temos tempo, se estamos ocupados, se estamos desmotivados ou o que quer que seja, meditar nas quatro ideias fundamentais é muito importante.
Assim somos fortemente encorajados a começar cada prática por um momento de reflexão, de tomada de consciência destas quatro ideias: podemos, no começo de cada meditação, consagrar alguns minutos à leitura do texto; é uma chamada de atenção e o essencial está contido de forma concisa nessa chamada de atenção. De seguida podemos alimentar a nossa tomada de consciência por uma consideração pessoal.
Estas meditações consistem em examinar através de uma reflexão, de uma introspecção, estas situações. O importante é levá-las em nós, que elas marquem a nossa mentalidade para que as tenhamos presentes no espírito sempre que estamos numa situação de decisão ou de escolha. Isto vai-nos permitir fixar uma nova escala de valores que tomará o essencial como ponto de referência central.
Muda-se assim de mentalidade e é recomendado fazê-lo regularmente. Uma mudança de mentalidade por dia, pelo menos…
Perguntas – Respostas
- Você disse que éramos livres para praticar o ensinamento mas isso não é verdade para toda a gente, penso nos doentes mentais, nos alcoólicos.
A preciosa existência humana é a existência humana na qual se tem todas as capacidades para nos consagrarmos ao caminho. È verdade que se se tem uma deficiência profunda, isso é um obstáculo. Mas isso não quer dizer que não tenhamos a natureza de Buda nem que não atinjamos nunca o despertar, a realização, mas está-se temporariamente diminuído. É possível para pessoas que têm tais insuficiências, de forma indirecta, estabelecer conexões com o Dharma, de diferentes maneiras. De qualquer forma falta alguma coisa, por agora, e o caminho apresenta-se diferido: hoje não podem ocorrer senão premissas. De formas diversas, há uma quantidade enorme de pessoas deficientes, no sentido corrente, mas também há deficiências simplesmente psicológicas que fazem que uma pessoa venha a ser incapaz de perceber a possibilidade e sobretudo a importância dum caminho, duma transformação, duma aprendizagem.
O facto de não sermos deficientes, o facto de termos encontrado o ensinamento, de sermos receptivos a este, de termos possibilidade de o praticar, faz precisamente que tenhamos a preciosa existência humana.
- Na perspectiva dos renascimentos e da transmigração, não se pode dizer que isso far-se-á numa outra vida?
É justamente o problema. Nós não podemos ter a existência humana sempre que o desejamos. Há pouco eu sugeria que ela não é senão uma ínfima possibilidade entre a totalidade das existências. Imagens utilizadas para meditar sobre isso dizem que os seres nos estados infernais são tão numerosos quanto os grãos de pó do planeta, que os espíritos ávidos são tão numerosos quanto os flocos de neve que caem num inverno sobre o Tibete, que os animais são tão numerosos quanto os grãos de areia nas margens do Ganges, que há tantos homens como estrelas na noite, mas que aqueles que têm a preciosa existência humana são tão raros como as estrelas em pleno dia.
Assim, se hoje não a utilizarmos de forma positiva, não teremos ulteriormente, mesmo na perspectiva dos renascimentos, a possibilidade de obter de novo a existência humana; e se desenvolvemos hoje um karma negativo, esse karma levar-nos-á a nascimentos dolorosos e penosos e, em qualquer caso, não interessa onde mas não nesta preciosa existência humana. A perspectiva de nascimentos humanos múltiplos não é em nenhum caso uma garantia: pelo contrário, se não a utilizamos hoje, temos todas as hipóteses de não reencontrar a preciosa existência humana ulteriormente.
- Você falou de meditar nestas quatro verdades fundamentais e eu pensei compreender que meditar era justamente tentar não conceptualizar.
Você tem razão no sentido de que a prática da meditação, no que ela tem de essencial, não é de todo uma prática intelectual. A prática de samatha-vipasyana não nos pede para reflectir sobre alguma coisa. Mas a palavra, «meditação», tem aqui um sentido diferente. Se quiséssemos ser mais rigorosos melhor seria falar de reflexão, de tomada de consciência. Trata-se de uma tomada de consciência que vem de uma reflexão ou de uma contemplação. Contemplamos um facto, reflectimos sobre diferentes situações e dessa reflexão vem uma tomada de consciência que trazemos nesse momento profundamente em nós.
- A morte, preparamo-nos já para ela?
Não tanto quanto isso, justamente. O problema é que não temos de todo a ideia nem a intenção de nos prepararmos para morrer. Não temos mesmo particularmente consciência do facto que vamos morrer. Há com certeza a ideia da morte. Mas nós não agimos como se o nosso tempo fosse limitado, como se fossemos relativamente rápido atingir a morte. A primeira coisa é tomar consciência dessa realidade de uma forma suficientemente efectiva para que ela nos permita transformar a nossa vida recentrando-a no essencial. Com a transformação da nossa mentalidade, esta afasta-se de todos os tipos de procuras egóticas e, em suma, vãs e fúteis, para ir na direcção do que merece verdadeiramente ser feito… com um certo sentimento de urgência. Não há tempo a perder. Pois não só a morte é inelutável e certa, como o momento em que ela aparecerá é incerto. Ela pode-nos surpreender a qualquer momento, quem quer que sejamos, e qualquer que seja a nossa idade.
Se desenvolvermos uma tomada de consciência efectiva da morte, que não seja unicamente intelectual, que seja vivida, sentida suficientemente em nós para que estejamos impregnados dela de forma estável, ela transforma a nossa relação com a vida, com o mundo e faz-nos redescobrir os valores que regem a nossa vida. Ela faz-nos mudar as prioridades da nossa vida e, de facto, essa tomada de consciência permite voltarmo-nos para o Dharma, avançarmos no seu caminho e encontrarmos a energia que permite fazê-lo. Se vivermos assim é a melhor preparação para a morte que pode haver pois, quando a altura inelutável se apresentar, não somos surpreendidos: estamos preparados para ela. Assim não estamos numa situação de recusa e no traumatismo que a confrontação traz frequentemente, e na medida em que estamos preparados para ela, não somos apanhados desprevenidos e sabemos o que é possível fazer. Nesse momento a morte deixa de ser um acontecimento traumatizante e penoso mas simplesmente uma passagem, uma transição… em última instancia um exame de passagem. E aliás temos a tranquilidade do bom aluno que está bem preparado.
- As consequências karmicas de um acto podem ser mais ou menos graves segundo este seja feito conscientemente ou não?
O peso karmico de um acto depende de cinco pontos: do objecto, da intenção, da passagem ao acto, da sua realização e da atitude subsequente.
A força do estigma depende primeiro da qualidade do objecto para o qual o acto é dirigido: quanto maior a qualidade do objecto, mais o acto terá consequências e peso. Depois a intenção: se se tem a intenção de executar um acto, se ele é feito conscientemente, deliberadamente, terá mais peso do que se ele é feito inconscientemente ou sem deliberação. Se a intenção encontra uma actualização na passagem ao acto, a tentativa de actualizar o que desejamos fazer, há aí mais força. De seguida, se o acto é realizado efectivamente, a força ainda aumenta mais. E finalmente, a atitude interior de satisfação ou de lamento determina também o peso do acto.
Tomemos um exemplo concreto. Você deseja matar alguém. Você concebe isso, há premeditação do assassínio. Acontece que essa pessoa que você quer matar é o presidente da República. É pesado! Depois há a passagem ao acto, a tentativa de homicídio voluntário. Essa tentativa realiza-se: ele foi morto. E depois você diz a si próprio: «Fi-lo, bravo!» e você é um assassino satisfeito. Tem aí os cinco pontos e apanha a pena máxima… Se os cinco elementos estão presentes, a força é máxima, e se não mais do que quatro, três, dois ou um, ela é gradualmente menos forte.
(continúa)

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