Homenagem à imensa Compaixão
As preliminares, bases do ensinamento.
Djodang.
1 - Começa por praticar as preliminares
a) As preliminares aos ensinamentos: As Quatro Noções Fundamentais
b) As preliminares a uma sessão de prática
II – AS PRELIMINARES (continuação)
Mudar a nossa mentalidade.
O samsara
Nós meditamos também, para mudar a nossa mentalidade sobre o que somos nesta sucessão de nascimentos e de mortes que é a nossa experiência.
Quando vemos bem esta situação em que os nossos condicionamentos nos fazem passar perpetuamente de estados felizes a outros dolorosos, compreendemos a possibilidade de entrar em relação com uma saúde fundamental livre desses condicionamentos que nos fazem assim funcionar de maneira maníaco-depressiva.
“Samsara” é uma palavra sânscrita que significa “ciclo”; é o “ciclo das existências”. A ideia é que a nossa consciência é condicionada pelo karma, positivo ou negativo, e que, sob a impulsão do karma, nós passamos por diferentes estados, constantemente de vida em vida.
Esses diferentes estados de consciência são tradicionalmente chamados os “seis mundos”. Eles constituem o conjunto das existências condicionadas; e a passagem da consciência, condicionada pelo karma, de um a outro desses estados constitui a transmigração no samsara.
O samsara chega ao seu fim no momento do despertar. A consciência habitual liberta-se então na experiência do espírito puro para lá da consciência individual. É o espírito do Buda, o espírito desperto.
Há o samsara, as existências condicionadas pelo karma, e para lá do samsara, o despertar, o nirvana, a libertação e o fim da consciência individual.
Uma estrutura defeituosa
O ponto importante na nossa meditação para mudar de mentalidade é o de tomarmos consciência de que todos os estados do samsara são problemáticos: são imperfeitos. O erro consiste em querer encontrar, procurar a felicidade nos estados condicionados.
Nós tentamos habitualmente encontrar a felicidade no acumular, no possuir, em protegermo-nos, em segurarmo-nos, adquirindo seguros, protecções, rodeando-nos de coisas, de pessoas…
Estas procuras, com a veemência que metemos nelas, acabam por dar mais problemas do que satisfações. É o resultado da procura da felicidade no samsara.
“As felicidades do samsara são como alegrias oferecidas pelo carrasco que nos conduz à execução” diz-nos o texto. A imagem é crua. Habitualmente somos fascinados pelas coisas do samsara. Somos atraídos e essa fascinação é, do nosso ponto de vista, o atractivo de qualquer coisa que nós percebemos como boa.
Mas o investimento nessa fascinação, o apego que aí metemos, acorrenta-nos ao samsara e leva-nos a «perder o despertar», leva-nos aos problemas, à morte e, neste sentido, à execução.
Esta frase sugere que não sejamos fascinados pelos prazeres imediatos do samsara e que os percebamos como o espectáculo que se produzirá na praça de execução.
As três formas de sofrimentos
As coisas, as pessoas, os lugares, todas as coisas do samsara, por muito atractivas que possam num primeiro tempo parecer, são em última instância fontes de problemas, de sofrimentos, quer seja a um nível grosseiro ou a um nível muito mais subtil.
É o que nos diz o texto:
“Os lugares, os amigos, as felicidades e possessões do samsara atormentam-nos e são sempre perturbados pelas três formas de sofrimentos”.
As três formas de sofrimentos são: o sofrimento grosseiro, o sofrimento do prazer e o sofrimento fundamental, existencial.
O sofrimento grosseiro é o sofrimento “comum”, quer seja físico ou psicológico.
Falar de «sofrimento do prazer» pode parecer paradoxal; é de facto, não um sofrimento comum, mas o problema que é inerente ao prazer: a mudança inevitável, isto é, o desaparecimento da satisfação e a falta, a frustração que daí resulta. É essa forma de sofrimento que é chamada de sofrimento do prazer. Poderíamos também chamá-la de sofrimento do desprazer; é o sofrimento da mudança: passar do prazer ao desprazer.
Há também o sofrimento fundamental, existencial: É o sofrimento que consiste em existir. O simples facto de existir, de se ser alguém é já um problema.
Isso também não é um sofrimento comum, é um problema que geralmente não nos preocupa. É um problema muito subtil mas que é o fundo, a origem das outras formas de sofrimento.
Existir é um problema, no sentido que, pelo facto de sermos alguém, existimos em relação a outras coisas – há o “eu” e depois “os outros” - e nesta separação, estamos numa situação de incompletude, de imperfeição.
Esta forma que é a mais essencial de sofrimento é o simples facto de se existir separado de qualquer coisa que é outra que não nós. É o sofrimento existencial e esta forma de sofrimento não desaparece senão no momento do despertar, no momento em que a percepção do ego individual desaparece definitivamente. E é porque há essa existência individual que há o investimento nas relações de atracção, de repulsão, de indiferença, de prazer, de desprazer, e que existem por fim os outros sofrimentos…
Todos os estados do samsara são sempre, aos níveis grosseiros ou subtis, perturbados por essas três formas de problemas. A existência condicionada é imperfeita e, por fim, se tomamos profunda consciência dessa situação, deixamos de procurar realizar a nossa felicidade nas coisas condicionadas: podemos aspirar à felicidade mas numa perspectiva muito mais justa na qual compreendemos que a felicidade fundamental está na libertação.
(continua…)
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