12 de março de 2010

Lodjong V


5) Lodjong: A causalidade kármica
Homenagem à imensa Compaixão
As preliminares, bases do ensinamento.
Djodang.
Nota: esta primeira máxima é dividida em uma curta introdução, depois as 4 ideias fundamentais e por fim a conclusão com as perguntas/respostas
1 - Começa por praticar as preliminares
a) As preliminares aos ensinamentos: As Quatro Noções Fundamentais
b) As preliminares a uma sessão de prática

II – AS PRELIMINARES (continuação)
Mudar a nossa mentalidade.

A causalidade kármica
Karma é uma palavra sânscrita que se pode traduzir por «acção». Trata-se da actividade no seu desenvolvimento: uma causa condicionada que conduz a uma consequência fonte de uma nova causa...
É um encadeamento de causa e efeito, que também pode chamar-se de “causalidade do karma".

Tomar consciência do karma é compreender que os nossos actos e gestos não são inocentes, que cada acto tem uma consequência: uma consequência visível e directa evidentemente, mas também uma consequência interior, no sentido que um acto deixa uma impressão no que é chamado a consciência fundamental e essa impressão subsiste e posteriormente condicionar-nos-á.
Nós hoje somos condicionados pelas impregnações que vêm dos nossos actos passados, é o nosso karma anterior ", e aquilo que fazemos hoje deixa por sua vez impressões que nos condicionarão posteriormente.
O bem e o mal no Dharma
Nesta sucessão de causas e efeitos, algumas actividades são fonte de paixões, reforçam estas e as atitudes egóticas.
Da mesma maneira essas acções vão ao encontro do caminho para o despertar: reforçam-nos nas nossas ilusões e são fonte de problemas, de dificuldades tanto para os outros como para nós próprios.
Essas actividades baseadas no ego, nas paixões, na medida em que se afastam do despertar e reforçam a confusão e os sofrimentos, são ditas negativas.
Noutro modo de funcionamento, inversamente, aproximam-nos do despertar: são as atitudes que não são passionais, conflituais e que trazem benefícios tanto aos outros como a nós próprios. Essas actividades fonte de benefícios e de felicidade são ditas positivas. Aqui, a noção de positivo e de negativo não é a noção habitual de bem e de mal no sentido moral, ainda que em última instância, a disciplina de Dharma respeite uma disciplina clássica; mas a perspectiva na qual esta é vivida é muito diferente.
A adesão a uma moral é a adesão a um conjunto de regras propostas, ditadas por uma instância teísta ou laica, por Deus ou pela lei; uma tal moral obriga a obedecer e implica uma certa atitude de submissão e, por conseguinte, muitas vezes, com uma vontade de desobediência, de transgressão, de revolta e também de culpabilidade.

Ética e karma
A noção de karma é a base da disciplina do Dharma. Caminhar para o despertar, para a saúde fundamental, exige uma disciplina exterior e uma disciplina interior. A disciplina interior é a da meditação e a disciplina exterior ensina-nos a viver de forma justa e sã graças a referências precisas. E é a causalidade do karma, a causalidade dos actos, que determina o «valor» de uma actividade.
Na perspectiva do Dharma, a disciplina não é uma moral, mas uma higiene de vida, um conjunto de regras de saúde espiritual: há atitudes negativas, passionais e egóticas que são geradoras de doenças, de disfuncionamentos - são atitudes patogénicas - e, inversamente, uma série de comportamentos são sãos e conduzem a um estado de equilíbrio, de harmonia e de saúde É aí que se situa o ensinamento sobre o karma.
Este espírito é muito importante e permite de seguida compreender bem a aplicação da lei na perspectiva da causalidade do karma.
Como temos necessidade de referência precisas para reger as nossas acções, o Dharma propõe-nos o que chamamos os dez actos negativos e os dez actos positivos.
Existem três ao nível do corpo, quatro ao nível da palavra e três ao nível do espírito.
Os actos positivos são, ao nível do corpo, preservar a vida, ser generoso e ter uma conduta sexual justa.
Ao nível da palavra trata-se de «falar verdade» de se ser através dela um factor de concórdia, de falar com conhecimento e de falar com doçura, sem agredir o outro.
Os actos positivos ao nível do espírito são o não-apego, o querer bem e o desenvolvimento de uma compreensão justa.
Os actos negativos são simplesmente o inverso dos actos positivos.
O essencial é caminhar para o despertar e esse caminho começa por esta aprendizagem de acções justas. E é unicamente sobre a base desta disciplina exterior que se poderá então desenvolver a disciplina interior de bodhicitta e depois a disciplina mais profunda da experiência meditativa.
Karma, liberdade e responsabilidade
Podemos também entender o karma como sendo os nossos condicionamentos, os nossos hábitos de pensamento com os seus mecanismos de repetição e de todos os estados nos quais estas concepções nos fazem passar. Tudo isto constitui a parte condicionada da nossa vivência.
Mas na nossa experiência há também uma parte de imediatiedade, de não concepção; é por isso que somos livres, relativamente livres. Nós somos livres na proporção precisa em que a imediatiedade está presente na nossa experiência. Cada momento participa desta natureza dupla: a nossa natureza, fundamental desperta, que é uma experiência autêntica, e a nossa natureza habitual, condicionada, com as paixões, as projecções da nossa individualidade. O importante é que nós somos sempre parcialmente livres, de modo que temos um livre arbítrio e também uma responsabilidade na escolha de uma acção sã.

Ao utilizar correctamente esta liberdade, favoreceremos as mentalidades as experiências que são uma ajuda para o despertar. De uma boa situação, partimos para uma melhor e criamos um «círculo virtuoso». Inversamente, se utilizamos erradamente esta liberdade e envolvemo-nos em opções erradas, reforçamos as tendências condicionantes, as concepções dualistas e egóticas e a situação pode ir de mal a pior, num círculo vicioso. É da nossa responsabilidade dar início a círculos virtuosos em vez de círculos viciosos. É também uma grande mudança de mentalidade e de maneira de viver quando o vivemos verdadeiramente.

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