4) Lodjong: A impermanência, uma realidade universal
Homenagem à imensa Compaixão
As preliminares, bases do ensinamento.
Djodang
Prefácio: Esta primeira máxima é composta por uma breve introdução, depois as quatro ideias fundamentais e por fim a conclusão com as perguntas/respostas.
1 - Começa por praticar as preliminares
a) As preliminares aos ensinamentos: As Quatro Noções Fundamentais
b) As preliminares a uma sessão de prática
II – AS PRELIMINARES (continuação)
Mudar a nossa mentalidade.
A impermanencia, uma realidade universal.
Esta preciosa existência humana é transitória: ela só dura um tempo curto e rapidamente terminará com a morte. Dos fenómenos astrofísicos aos fenómenos microfísicos e moleculares, nada é estável, permanente. Quer seja a duração dos ciclos cósmicos, das eras, anos, estações, alternâncias diurnas e nocturnas ou de instante a instante, não há nada que seja estável, fixo ou permanente: o mundo é uma malha de acontecimentos em perpétua interacção, em perpétua mudança. A impermanência é, antes de tudo, uma verdade universal; é a primeira das características do ensinamento do Buda:
"Tudo o que foi composto será decomposto."
É uma ideia fácil de aceitar intelectualmente e que é de facto moderna e científica, mas nós não a vivemos ao nível pessoal: não nos experimentamos como um fluxo de acontecimentos em perpétua mudança. Em vez disso, percebemos--nos como "um", "eu próprio”, "eu": atribuímo-nos uma realidade, uma estabilidade, uma constância de que somos desprovidos Perceber as coisas como estáveis e fixas está na nossa mentalidade, mas é pura ilusão. É como querer ver como estável e fixo o curso de um rio em que a água corre e se renova a cada instante.
A impermanencia e a morte
A nossa mentalidade é assim fundada sobre uma percepção do mundo e de nós próprios como tendo uma realidade estável.
Uma das consequências é que nós não temos consciência do carácter muito transitório da nossa vida. É claro que todos nós sabemos que somos mortais, mas a nossa compreensão da morte tem tendência a ser puramente epidérmica ou intelectual: não temos integrada a realidade da nossa morte, não a vivemos no quotidiano. Nas acções e gestos de todos os dias, nos nossos pensamentos, nas nossas decisões, temos sempre tendência a projectarmo-nos num futuro muito hipotético e a dispersarmo-nos em todos o tipo de projectos, de perspectivas, de procuras, de aquisições e isso como se fossemos viver indefinidamente.
Um ponto também particularmente importante na consideração da impermanência e da morte, é a aplicação desta à nossa situação pessoal.
No Ocidente, vivemos numa situação onde a realidade da morte é ocultada. Há uma negação da morte e esta tem um carácter escandaloso: ela é relegada para os "fundos " dos serviços hospitalares especializados. Através de diversos meios lançamos um véu pudico sobre a morte.
Podemos tomar consciência da nossa morte olhando para todos os seres do passado: ninguém lhe escapou, mesmo os maiores e mais iluminados desapareceram.
É importante também tomar consciência da incerteza do momento da morte, e de não a relegar como um acontecimento inelutável a acontecer num futuro distante. O momento da morte é incerto e as causas da morte são variadas. A morte pode ocorrer a qualquer altura. É algo que geralmente não compreendemos intimamente, daí a importância dessa tomada de consciência.
Todos nós conhecemos amigos, parentes, que tinham a nossa idade, que estavam como nós e que morreram, quer de doença, acidente ou de outra forma. A morte é imprevisível e pode acontecer não importa quando. Ninguém pode ter a certeza de estar ainda vivo amanhã.
Esta tomada de consciência da incerteza do momento da morte é extremamente importante. Quando vemos alguém morrer, podemos dizer que é a natureza dos seres e que isso vai nos acontecer mais cedo ou mais tarde.
Quando vemos a morte na televisão, é uma chamada de atenção: Ainda que seja a dos outros, o confronto com a morte torna-se um rapel da nossa própria impermanência. Nessa altura, muitos estímulos quotidianos podem ser um tema de meditação. A impermanência é um tema de reflexão, um tema de meditação, uma tomada de consciência essencial e que deve ser quotidiana, que deve ser constante.
Podemos meditar também mais concretamente sobre a nossa morte, ou seja, sobre o acontecimento inevitável que nos fará abandonar o nosso corpo.
Essa meditação faz-nos tomar consciência da precariedade da vida e faz nascer em nós um sentimento de urgência, é um estímulo que nos dirige ao que é essencial no presente. Além disso, se tivermos consciência da morte e nos dedicarmos ao essencial tanto quanto pudermos, quando o acontecimento inevitável chegar, teremos o sentimento de ter feito tudo o que podíamos e poderemos então encarar a morte serenamente.
Redefinir as prioridades
Estas reflexões são muito inspiradoras para fazer o que vale verdadeiramente a pena ser feito, no presente, muito mais do que adiar para um futuro hipotético. Sofremos no nosso mundo moderno de uma doença que é não ter tempo. Nunca temos tempo. A meditação sobre a impermanência é um remédio para este mal moderno que é a sobrecarga das solicitações e a falta de tempo. Com efeito, na medida em que transportemos a impermanencia em nós, muitas coisas aparecer-nos-ão sem muito sentido, para não dizer completamente vãs. E a impermanência, reduzindo a influência de toda a espécie de coisas fúteis, traz uma grande liberdade e torna-nos muito mais disponíveis para aquilo que é essencial.
Uma tomada de consciência real desta situação leva a uma conversão do espírito, a uma revolução na qual é possível redefinir a hierarquia das nossas prioridades.
O que é que verdadeiramente vale a pena ser feito?
Esta reflexão pode ter um efeito extremamente decapante e simplificador. Depois de nos perguntarmos, ao passar uma revisão sobre as nossas actividades, o que é que é verdadeiramente essencial, podemos simplificar a nossa vida e encontrar tempo. Esta meditação pode libertar-nos de todos os tipos de procuras vãs, de procuras quiméricas, e centrar-nos no presente, para aí realizar o essencial.
Impermanencia e não-apego
Esta meditação na impermanencia não é de todo uma reflexão mórbida, triste e muito menos macabra, mas uma tomada de consciência realista que, se for feita profundamente, pode levar-nos a viver o presente plenamente, livremente e alegremente; descobrimos a liberdade de nos consagrarmos ao essencial e somos felizes em fazê-lo.
Há no entanto uma passagem por algo profundamente doloroso que é a aceitação da perda fundamental, mas essencialmente é uma meditação que tem um poder libertador; pode libertar-nos das nossas angústias que provêm da negação da morte.
Meditar na impermanencia é antes do mais realista e tem o poder de dissolver o apego que habitualmente investimos nas situações.
Apegamo-nos a coisas que quereríamos possuir e a percepção da impermanência mostra-nos o carácter fútil, vão, ilusório destas tentativas.
Está na natureza das coisas que tudo o que foi construído finalmente dissolver-se-á, que tudo o que foi acumulado finalmente esgotar-se-á, que tudo o que se uniu finalmente separar-se-á, que tudo o que nasceu finalmente morrerá.
A impermanência é também a sucessão dos nascimentos e das mortes. A impermanência é a vida e a vida é feita de alternâncias de nascimentos e de mortes, de aparecimentos e de desaparecimentos. Meditar na impermanencia é assim meditar na realidade da vida. Esta tomada de consciência leva a uma verdadeira experiência de não-apego.
Não estar consciente desta realidade é uma ilusão fonte de fixações e de apegos que, logo que a impermanencia inevitável ocorre, nos causa dor e sofrimentos.
Uma verdadeira tomada de consciência da impermanencia permite despertar para uma percepção do mundo e de nós próprios que é muito mais suave e fluida e muito menos conflitual. Os Conflitos resultam dos investimentos passionais que pomos nas situações; uma verdadeira consciência da impermanencia reduz esses apegos e as paixões que deles resultam.
Uma tomada de consciência autêntica da morte permitir-nos-á viver melhor, viver melhor no Dharma...
A questão principal é meditar sobre a morte para viver bem e para bem praticar o Dharma, com energia e sem apego.
Quando vamos a algum lugar, não sabemos se aí chegamos realmente nem se daí voltamos; quando adormecemos, nunca sabemos ao certo se voltaremos a acordar.
A impermanencia permite-nos viver no presente. O que não significa ignorar tudo o que aconteceu no passado e viver de uma maneira irresponsável, mas a experiência plena do presente resume o passado e viver plenamente o presente prepara o melhor futuro.
A meditação na morte é fonte de alegria e também de bem-estar, porque centrando-nos no presente, ela inspira-nos a viver o momento, a situação presente como se fosse a última.
E se soubéssemos que não tínhamos mais do que um ano, um mês, uma semana ou um dia para viver, o que faríamos? A incerteza do momento da morte permite-nos de certa forma viver com essa intensidade cada uma das situações da nossa vida diária.
A aceitação da morte no coração da via
A compreensão profunda da morte é mesmo uma forma primitiva de perceber a vacuidade. A vacuidade é a ausência de substância fixa, sólida, de entidade autónoma em todas as coisas, objecto ou sujeito.
O carácter impermanente de cada momento, quando é percebido profundamente, é uma primeira intuição dessa vacuidade.
Meditar na impermanencia é particularmente importante. Um praticante um dia perguntou ao seu mestre:
"Mestre, se não houver senão uma prática que eu possa fazer, que prática é essa?".
E, o mestre respondeu:
"Meditar na impermanencia".
A impermanencia é uma meditação fundamental no início do caminho, permite-nos tomar consciência da urgência que há em fazer alguma coisa, talvez mesmo criando um sentimento de inquietude. Depois, é uma meditação essencial sobre a via, como estímulo, como um meio de nos trazer de volta com energia ao essencial. E é também uma meditação essencial no final do percurso, quando, para além das mudanças, se desperta a natureza do espírito que está para lá de todas as alternâncias de nascimentos e de mortes.
É neste sentido que Milarepa, dizia:
"A ideia da morte é o que inicialmente me fez entrar na via, tornou-se a companheira que me fez praticar com energia e é hoje a amiga com a qual estou para lá das mortes e dos nascimentos. "
(Continua...)
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