19 de julho de 2010

Lodjong XX

20) Lodjong: Bodhicitta relativo (A prática sentada)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Cultivar bodhicitta relativo

IV – BODHICITTA RELATIVO
A Prática sentada
Na prática sentada, seguimos aproximadamente as mesmas etapas. Metemo-nos primeiro em situação. Sentimos que podemos ser tocados, vulneráveis. Imaginamos essa pessoa cujo sofrimento não nos pode deixar insensível e estamos disponíveis a estarmos expostos, a tomar em nós e também a dar.
Quando aceitamos, meditamos que nos deixamos penetrar pela dificuldade, pelo indesejável até ao mais profundo de nós mesmos. O nosso abandono da resistência não é simplesmente um abandono ao nível epidérmico nem mesmo através de um estrato ou dois da nossa carapaça, mas aceitarmos ficar completamente nus e sermos penetrados até ao mais profundo de nós próprios.
Podemos mesmo dizer que desvanecemos perante as coisas negativas, no sentido de que não oferecemos qualquer resistência, qualquer recusa. Há uma aceitação plena, completa e sem limites. E quando damos, é também um dom sem limites que parte do centro do nosso coração.
Treinamo-nos assim neste movimento duplo imaginando que incorporamos as dificuldades, a negatividade, sob uma forma de sombra, como um fumo escuro que nos penetra até ao mais profundo de nós próprios; na ausência completa de resistência, chegado ao centro do nosso ser, tudo se dissolve.
Depois, deste mesmo centro, do nosso coração, sob uma forma clara, luminosa, irradiante, nós damos, irradiamos coisas boas, bondade, felicidade, tudo o que é positivo.
Também aqui num movimento ilimitado, sem nenhuma reserva; não sentimos um sentimento de pobreza: aceitamos dar e o nosso coração é como uma fonte inesgotável de coisas boas, uma luz que irradia e se difunde sem limites.
Voltando, de tempos a tempos, à situação inicial que era a experiência do ponto sensível, desenvolvemos este movimento duplo de aceitação e de dom utilizando o suporte visual que é a incorporação de uma forma obscura e a irradiação de uma luz clara.
De seguida, quando experimentámos esta aptidão à aceitação e ao dom tocando o nosso ponto sensível, alargamos esta prática aprendendo a considerar cada ser como sendo a nossa própria mãe, como sendo igual a esse ser que nos é mais querido.
Através dos nascimentos inumeráveis, todas as conexões possíveis existiram com todos os seres e não há nenhum que não tenha sido a nossa própria mãe, que não tenha sido a pessoa que nos é querida entre todas.
Aprendemos a ver em cada pessoa assim, alguém que nos é querido e a praticar tonglen, aceitar-dar, alargando o círculo de pessoas que tomamos como referências.
Podemos também meditar em pessoas com quem tenhamos tido dificuldades concretas. Se temos uma dificuldade concreta com alguém, podemos imaginar essa pessoa e aprender a aceitar e a dar, a ultrapassar as prevenções, os à priori, a agressividade, a recusa, os bloqueios e a dar.
(continua…)  

12 de julho de 2010

Lodjong XIX

19) Lodjong: Bodhicitta relativo (O ponto sensível)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Cultivar bodhicitta relativo

IV – BODHICITTA RELATIVO
O ponto sensível
Para ultrapassar as resistências, é importante estarmos numa situação na qual somos tocados, na qual queremos verdadeiramente aceitar o que habitualmente não estamos dispostos a aceitar e a dar o que quereríamos guardar.
Descobrir uma tal situação é tocar em nós «o ponto sensível».
Para o fazermos, imaginamos estar na presença da pessoa que nos é mais querida, que amamos mais do que tudo e que essa pessoa está numa situação dolorosa. Sentimo-nos então profundamente interpelados pela dor do outro, pelas suas dificuldades e não conseguimos ficar indiferentes: estamos dispostos a fazer tudo o que pudermos, a aceitar coisas que não queríamos e a dar sem reservas.
Descobrir a compaixão é descobrir essa capacidade de se ser receptivo, de se ser tocado pelos outros. Mesmo se tivermos desenvolvido todos os tipos de carapaças, de blindagens, de defesas, há em nós uma possibilidade de ternura, de doçura: nós podemos, em certas circunstâncias, ser tocados. É precisamente o que se trata de descobrirmos em nós: essa capacidade de sermos tocados, de sermos receptivos.
Geralmente, tentamos tocar nesse ponto sensível, descobrir essa sensibilidade na relação que normalmente é a mais propícia, precisamente aquela que temos com a nossa mãe.
Esta abordagem põe problemas no Ocidente pois temos algumas vezes todo o tipo de rancores, de agressividade em relação aos nossos pais. Assim, se se der o caso de termos um bloqueio ou uma dificuldade particular em relação à nossa mãe, que isso não funcione, podemos transpor a mesma prática para a pessoa que tomou conta de nós, que nos protegeu, que nos acarinhou, que nos educou e que nos permitiu que nos tornássemos o que nos tornámos.
Tradicionalmente, começamos por considerar a nossa própria mãe e por tomar consciência do que ela fez por nós. Ela é quem nos trouxe dentro de si, quem nos deu à luz, que, nos nossos primeiros momentos de existência, nos protegeu, nos amamentou, nos ensinou a andar, a pormo-nos de pé, a falar; ela mostrou-nos o mundo.
Ela é quem, quando chorámos, esteve disponível para responder e ver o que se passava, em detrimento da sua tranquilidade, do seu bem-estar. É quem verdadeiramente se nos deu de si mesma, que se sacrificou, e isso não particularmente por obrigação mas a partir de um sentimento de benevolência e de amor autênticos. Essa pessoa teve por nós uma bondade enorme.
Meditamos, tomamos consciência dessa situação e nasce então em nós um grande reconhecimento.
E se essa pessoa que soube dar-se-nos assim, estivesse numa situação difícil, dolorosa, da qual fossemos testemunha, não poderíamos ficar indiferentes; poderíamos então ficar verdadeiramente tocados, empenhados, interpelados a responder com benevolência: não é qualquer coisa de teórico, trata-se de o viver.   
Nessa situação, aceitamos tudo o que aí possa haver de indesejável, de difícil e abandonamos as nossas resistências, as nossas defesas, as nossas atitudes que consistam em dizer não e a recusar.
Trata-se de uma aceitação sem reservas e sem limites na qual nos tomamos e abrimo-nos. É o tomar sobre si.
Depois experimentamos o outro movimento, que é o de dar, sempre nesta situação onde sentimos a nossa aptidão para dar, dar de nós, dar o que temos de agradável.
Descobrimos assim a possibilidade desta atitude com a nossa mãe, ou com uma pessoa que teve para nós essa função; depois, a pouco e pouco, passo, dos que nos são mais próximos estendemos: incluímos o nosso pai, os nossos amigos, os que nos são próximos, os nossos filhos, aqueles que nos são queridos, depois simplesmente os que nos rodeiam, de seguida pessoas mais longínquas, e finalmente todos os seres, até desenvolvermos um sentimento de benevolência pelos mosquitos, pelas aranhas, e mesmo pelas pessoas em relação às quais temos uma apreensão particular: rivais, inimigos, malfeitores.
(continua…)  

9 de julho de 2010

"Um mundo diferente é possível?"

Caros amigos,


A conferência "Um mundo diferente é possível?" que a Prof.ª Manuela Silva a convite conjunto da Sangha Rimay Lusófona e da Associação Abril ia proferir, foi reagendada para o dia 15 de Julho (quinta-feira) às 19h00 na sede da Associação Abril  - Rua de São Pedro de Alcântara, n.º 63, 1ºDt ( junto da Igreja da Misericórdia e em frente ao jardim de São Pedro de Alcântara - metro Chiado, elevador da Glória, bus 58).


O tema relaciona-se com o contexto da actual crise económico-financeira que abala o mundo ocidental e. em particular, Portugal.


Esperamos que vos agrade a nossa proposta e que tragam outros amigos.
Um abraço de amizade.

2 de julho de 2010

Lodjong XVIII

18) Lodjong: Bodhicitta relativo (Aceitar e dar)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Cultivar bodhicitta relativo

IV – BODHICITTA RELATIVO

Aceitar e dar
Podemos começar a praticar esta troca sentados sobre uma almofada.
Estamos sentados e, em vez de estarmos numa atitude tensa e crispada, em vez de nos bloquearmos «fechando-nos numa carapaça» aprendemos a relaxar-nos e a aceitar, aceitar a estarmos expostos.
Aceitando-o plenamente, completamente, sem recusa nem resistência, não há embate. Quando a aceitação é plena, o carácter conflitual da situação tem tendência a desaparecer; nós não resistimos senão perante alguma coisa que é recusada.
Assim, o indesejável completamente aceite dissolve-se e o conflito desaparece. Fala-se por vezes de tomar sobre si o indesejável, mas a expressão «tomar sobre si» presta-se a confusão; não se trata de tomar sobre os ombros um fardo. Trata-se antes de aprender desaparecendo: aceitamos abrir-nos metendo-nos entre parênteses, aceitando plenamente.
Depois aprendemos a dar.
É o movimento inverso que consiste em aceitar dar tudo o que temos de bom, de positivo. Geralmente não estamos dispostos a dar, seja de nós ou do que é nosso. Temos uma mentalidade de pobreza, temos a impressão de já termos pouco e de não nos restar grande coisa se dermos.
Trata-se de realizarmos que podemos levar alguma coisa.
Se tentarmos verdadeiramente, se não estamos à defesa, descobrimos que temos alguma coisa a dar, de uma forma muito simples.
Depois, ao dar, descobrimos mais riqueza e aprendemos assim a ultrapassar todas as hesitações, as resistências e realizamos que cada vez temos mais para dar, para oferecer… e quanto mais damos, mais nos abrimos e mais descobrimos uma riqueza, uma riqueza inesgotável. É o dom.
É no ultrapassar esta fronteira, esta barreira, este mundo egótico que se desenvolvem ao mesmo tempo a compaixão e a abertura.
Esta troca, esta comunicação livre, permite abrirmo-nos às situações e ter com elas uma relação radicalmente diferente. Aprendemos, de seguida, a transpor este estado de espírito e este tipo de relação a todos os tipos e acontecimentos da nossa vida.
Aprendendo a fazer esta troca, esta aceitação e este dom, desenvolvemos uma compaixão e um amor autênticos. Não se trata de um amor idiota no qual aceitaríamos como quer que fosse, o que quer que fosse, e daríamos da mesma maneira.
Ao aceitar a situação, cessando recusá-la, nós expomo-nos à realidade da situação e, ao aceitar dar abrindo-nos sem resistência, oferecemos à situação aquilo que somos verdadeiramente, e há nesta prática uma inteligência extremamente profunda.
Estes dois movimentos, de aceitação do indesejável e de dom do que temos a tendência a estarmos apegados, são a base da meditação de tonglen.
(continua…)