12 de julho de 2010

Lodjong XIX

19) Lodjong: Bodhicitta relativo (O ponto sensível)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Cultivar bodhicitta relativo

IV – BODHICITTA RELATIVO
O ponto sensível
Para ultrapassar as resistências, é importante estarmos numa situação na qual somos tocados, na qual queremos verdadeiramente aceitar o que habitualmente não estamos dispostos a aceitar e a dar o que quereríamos guardar.
Descobrir uma tal situação é tocar em nós «o ponto sensível».
Para o fazermos, imaginamos estar na presença da pessoa que nos é mais querida, que amamos mais do que tudo e que essa pessoa está numa situação dolorosa. Sentimo-nos então profundamente interpelados pela dor do outro, pelas suas dificuldades e não conseguimos ficar indiferentes: estamos dispostos a fazer tudo o que pudermos, a aceitar coisas que não queríamos e a dar sem reservas.
Descobrir a compaixão é descobrir essa capacidade de se ser receptivo, de se ser tocado pelos outros. Mesmo se tivermos desenvolvido todos os tipos de carapaças, de blindagens, de defesas, há em nós uma possibilidade de ternura, de doçura: nós podemos, em certas circunstâncias, ser tocados. É precisamente o que se trata de descobrirmos em nós: essa capacidade de sermos tocados, de sermos receptivos.
Geralmente, tentamos tocar nesse ponto sensível, descobrir essa sensibilidade na relação que normalmente é a mais propícia, precisamente aquela que temos com a nossa mãe.
Esta abordagem põe problemas no Ocidente pois temos algumas vezes todo o tipo de rancores, de agressividade em relação aos nossos pais. Assim, se se der o caso de termos um bloqueio ou uma dificuldade particular em relação à nossa mãe, que isso não funcione, podemos transpor a mesma prática para a pessoa que tomou conta de nós, que nos protegeu, que nos acarinhou, que nos educou e que nos permitiu que nos tornássemos o que nos tornámos.
Tradicionalmente, começamos por considerar a nossa própria mãe e por tomar consciência do que ela fez por nós. Ela é quem nos trouxe dentro de si, quem nos deu à luz, que, nos nossos primeiros momentos de existência, nos protegeu, nos amamentou, nos ensinou a andar, a pormo-nos de pé, a falar; ela mostrou-nos o mundo.
Ela é quem, quando chorámos, esteve disponível para responder e ver o que se passava, em detrimento da sua tranquilidade, do seu bem-estar. É quem verdadeiramente se nos deu de si mesma, que se sacrificou, e isso não particularmente por obrigação mas a partir de um sentimento de benevolência e de amor autênticos. Essa pessoa teve por nós uma bondade enorme.
Meditamos, tomamos consciência dessa situação e nasce então em nós um grande reconhecimento.
E se essa pessoa que soube dar-se-nos assim, estivesse numa situação difícil, dolorosa, da qual fossemos testemunha, não poderíamos ficar indiferentes; poderíamos então ficar verdadeiramente tocados, empenhados, interpelados a responder com benevolência: não é qualquer coisa de teórico, trata-se de o viver.   
Nessa situação, aceitamos tudo o que aí possa haver de indesejável, de difícil e abandonamos as nossas resistências, as nossas defesas, as nossas atitudes que consistam em dizer não e a recusar.
Trata-se de uma aceitação sem reservas e sem limites na qual nos tomamos e abrimo-nos. É o tomar sobre si.
Depois experimentamos o outro movimento, que é o de dar, sempre nesta situação onde sentimos a nossa aptidão para dar, dar de nós, dar o que temos de agradável.
Descobrimos assim a possibilidade desta atitude com a nossa mãe, ou com uma pessoa que teve para nós essa função; depois, a pouco e pouco, passo, dos que nos são mais próximos estendemos: incluímos o nosso pai, os nossos amigos, os que nos são próximos, os nossos filhos, aqueles que nos são queridos, depois simplesmente os que nos rodeiam, de seguida pessoas mais longínquas, e finalmente todos os seres, até desenvolvermos um sentimento de benevolência pelos mosquitos, pelas aranhas, e mesmo pelas pessoas em relação às quais temos uma apreensão particular: rivais, inimigos, malfeitores.
(continua…)  

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