21 de agosto de 2010

Lodjong XXII

22) Lodjong: Bodhicitta relativo (Máxima 8)
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Cultivar bodhicitta relativo

8 – Três objectos, três venenos, três fontes de virtudes.
c) Entre as sessões sentadas

IV – BODHICITTA RELATIVO
«Três objectos, três venenos, três fontes de virtudes.»
Existem três tipos de objectos: os bons, os maus e aqueles ao quais somos indiferentes.
Perante estes três tipos de objectos, há três tipos de atitudes: o desejo-apêgo em relação aos objectos bons, a aversão e a rejeição em relação aos objectos maus e a indiferença, isto é a ignorância, a ocultação dos objectos que não nos interessam.
São os três venenos, as três relações que envenenam as nossas experiências.
A prática de Lodjong propõe-nos transformar estes três venenos em três fontes de virtudes. Há a transformação daquilo que era veneno em alimento. O que é muito prático pois cada vez que temos problemas vindos de um ou de outro destes venenos, estes podem ser utilizados como bases de prática, como suportes, «matéria-prima».
O método é aceitar o que está no nosso espírito. Por exemplo quando uma emoção de agressividade aparece, sobre a base da vigilância reconhecemos a sua presença e aceitamo-la. E para além da aceitar, podemos dizer:
«Possa, nesta emoção de aversão que é minha no instante presente, resumir-se a aversão de todos os seres e possam eles pela mesma ser dela aliviados, libertados, e isso ser para eles um factor de despertar.»
Nós aceitamos a presença da agressividade, depois formulamos, sobre a base dessa emoção, uma intenção positiva, um desejo de despertar.
Trata-se de aceitar essa agressão plenamente, totalmente, de a tomar sobre si, de a fazer sua plenamente e quando assim o fazemos verdadeiramente, neste gesto de aceitação total, de um tomar sobre si total, a nossa paixão encontra-se finalmente sem objecto.
Assim que a aceitamos que a tomamos totalmente, ela fica cortada do seu suporte, do seu objecto, e uma paixão sem objecto perde o seu carácter passional. As nossas paixões têm necessidade de um objecto sobre o qual se fixarem para se constituírem e subsistirem.
Ao aceitarmos plenamente a nossa própria paixão, cortamo-la do seu objecto e, de uma certa forma, cortamos o mecanismo que a pode fazer desenvolver-se e eventualmente amplificar-se.
O que é mais, aquilo que inicialmente era uma atitude agressiva, destrutiva, neste tomar sobre si, nesta aceitação, torna-se a fonte de uma motivação positiva e é assim que o que era inicialmente veneno, paixão, se torna fonte de virtudes.
Um ponto importante é o de ter a vigilância que nos permite reconhecer o estado presente do nosso espírito; nós não podemos aceitar uma paixão a não ser que a reconheçamos.
Esta prática pode parecer um bocadinho curiosa ao princípio, mas é algo que é importante tentar fazer.
Se aplicarmos verdadeiramente esta ideia, ela é extremamente pertinente e poderosa em todas a s circunstâncias da vida.
Fora da meditação sentada, temos frequentemente paixões e se pudermos utilizar este método, essas paixões tornam-se fontes de virtudes tão frequentes.
Isto pode parecer simples, mas é um passo prático que, se é dado verdadeiramente, revela-se profundamente efectivo.
De facto, o que era inicialmente uma aversão que se teria facilmente desenvolvido numa relação agressiva, colérica é uma chamada de atenção para uma atitude de espírito que é de facto bodhicitta, o desejo de ajudar todos os seres no seu caminho para o despertar.
Não só a paixão se torna uma chamada de atenção para um pensamento de bodhicitta mas, para além disso, a dissuasão operada por esse pensamento, dispersa a nossa agressividade do seu objecto inicial e a agressividade assim dispersa torna-se sem objecto.
Em vez de se construir numa reacção em cadeia com a escalada habitual, esse passo corta rente essa fixação e a agressividade cai, a própria energia dissolve-se.
Eis como um veneno-paixão se torna um pensamento de bodhicitta e pode ser dissolvido, libertado.
O que acabamos de dizer em relação à agressão aplica-se igualmente, por transposição, ao desejo-apêgo, ou mesmo à indiferença.
(continua…)  


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