No próximo dia 27 de Maio, pelas 17h, Ana Cristina Alves, doutorada no pensamento filosófico chinês, dará uma prelecção sobre o tema: "A influência do Daoismo e Budismo na Deep Ecology". A sessão realizar-se-á no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras de Lisboa e enquadra-se no curso de Filosofia e Estudos Orientais (entrada livre para esta sessão).
O Movimento Ecologia Profunda (MEP) surgiu durante a década de 70 pelo génio do filósofo norueguês Arne Naess (ver foto). No entanto, é pela mão de Bill Devall e George Sessions, ambos estado-unidenses, que as ideias e princípios quer do movimento quer da sua plataforma são dados a conhecer ao mundo. Daí que frequentemente, se pense que estes autores são os criadores originais do MEP. Este movimento surge como resposta filosófica e ética à crise ecológica que se tem vindo a acentuar quer no mundo físico quer nas nossas percepções deste. A designação ecologia profunda (deep ecology) surge por oposição ao termo ecologia superficial (shalow ecology) que Naess atribui aos aspectos mais técnicos e menos filosóficos da ecologia.
Por vezes mal compreendida, esta terminologia pretende apenas salientar as diferenças entre uma abordagem dos temas ecológicos na perspectiva mais filosófica e na perspectiva mais técnica. Assim, o termo profundo refere-se a uma abordagem reflexiva e crítica que, transcendendo as questões operacionais, conduz o indivíduo a questionar o seu papel e a sua condição no mundo, conduzindo a uma eventual construção da sua filosofia ecológica. Por outro lado o termo superficial refere-se às abordagens mais pragmáticas, muitas vezes Associa as ao desenvolvimento de tecnologias verdes que não revela preocupações de cariz afectivo ou filosófico na relação do indivíduo com o meio circundante. Ainda que Naess seja um pouco crítico em relação à abordagem da ecologia superficial, referindo que os seus objectivos são essencialmente “a saúde e riqueza das comunidades dos países desenvolvidos”, não deixa de valorizar os aspectos científico-tecnológicos da ecologia como nos é dado a perceber quando afirma que “o movimento ecologia profunda é suportado pelos resultados das investigações em ecologia e, mais recentemente, nos trabalhos da biologia conservativa”.
O MEP desenvolveu oito princípios básicos que constituem a sua plataforma de acção. Estes princípios deixam transparecer uma dimensão ética, que é claramente assumida pelos apoiantes deste movimento, mas não deixam de ser suficientemente generalistas para que possam ser adaptados e reconstruídos pelas diferentes comunidades humanas. Como afirma Silva (2004) “a ecologia profunda consiste num sistema derivacional, uma vez que assenta numa sistematização lógica, onde cadeias de premissas-conclusões geram sucessivamente normas mais precisas e concretas, que resultam em última instância de hipótese e premissas previamente aceites” (p. 214). Há, no entanto, uma linha condutora nestes princípios, que é a perspectiva de ver os humanos como parte integrante da natureza, como seus constituintes. Esta perspectiva levanta-nos algumas questões no que respeita à extensão das intervenções da humanidade no mundo natural. Trata-se de uma perspectiva ecocentrada onde o mundo natural é visto como uma extensão de nós mesmos e não como um recurso a explorar à exaustão. Numa mundividência gaiana, poderíamos afirmar que os humanos são constituintes do mega organismos Gaia.
Seguidamente transcrevemos os octo principia do MEP:
1. O bem-estar e a prosperidade da vida humana e não-humana na Terra têm valor próprio (valor intrínseco, valor inerente). Estes valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para os propósitos da humanidade.
2. A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização destes valores, e são também valores em si mesmo.
3. Os seres humanos não têm o direito de reduzir esta riqueza e diversidade, excepto para satisfazer necessidades humanas vitais.
4. A prosperidade da vida e da cultura humana é compatível com um decréscimo substancial da população humana. A prosperidade da vida não-humana requer esse decréscimo.
5. A actual interferência humana com o mundo não-humano é excessiva, e a situação está a piorar rapidamente.
6. As políticas têm assim de ser alteradas. Elas afectam estruturas económicas, tecnológicas, e ideológicas básicas. A situação resultante da sua alteração será, assim, profundamente distinta da actual.
7. A mudança ideológica ocorrerá, sobretudo, no sentido da apreciação da qualidade de vida (mergulhando em situações de valor inerente) em vez de adesão a padrões de vida cada vez mais elevados. Haverá uma consciência profunda da diferença entre “grande” e “desejável”.
8. Os que subscrevem os princípios anteriores têm a obrigação de directa ou indirectamente tentarem instituir as mudanças necessárias.
O termo vida, usado no contexto do MEP, refere-se à ecosfera no global e não apenas à dos seres vivos que a constituem. Naess recorre à expressão “Terra viva” para elucidar a abrangência com que o termo vida é usado neste princípio.


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