28 de maio de 2010

Lodjong XIV

14) Lodjong: A prática principal
Homenagem à imensa Compaixão
A prática principal: cultivar bodhicitta
Conclusão
III – BODHICITTA ÚLTIMO (conclusão)
O “rappel” do coração-espírito desperto último
Bodhicitta último descobre-se e depois cultiva-se em instantes de rappel durante os quais se faz uma experiência de abertura e transparência. São os dois pontos-chave de bodhicitta último. A experiência de abertura é a que é vivida quando «abandonamos», em que nos desprendemos em relação a uma situação à qual estamos investidos.
É comparável ao instante de pause da meditação sentada. É uma experiência de espaço, uma experiência que traz espaço na nossa vida.

Este rappel de bodhicitta último, para além da sua qualidade espaçosa, tem uma qualidade de transparência. A transparência é simplesmente a qualidade da nossa experiência quando há essa abertura, esse desapego. A solidez das nossas experiências vem da intensidade das fixações que investimos numa situação e a abertura de que falamos é um momento de não-fixação, de desapego de desprendimento.
Em vez de experimentarmos um mundo que é solidificado e opaco, e em vez de sermos, nós, duros e rígidos, numa experiência de expansão e de não-fixação descobre-se uma certa experiência de transparência. A experiência que fazemos não tem a solidez, a rigidez habitual: Vimos de uma certa forma através do muro das nossas projecções. É claro que há aparecimento, mas em vez de ser um aparecimento ao qual nos fixamos e que é solidificado, nessa ausência de fixação, esse aparecimento tem uma certa transparência.
Essa experiência desprendida e transparente não é uma experiência imprecisa, vaga: não nos tornamos num ser etéreo e nebuloso, nublado. Antes pelo contrário, esses momentos de rappel permitem que nos desprendamos em relação ao que nos possui habitualmente e podemos descobrir uma presença intensa, uma presença desprendida.
São instantes em que estamos ao mesmo tempo desprendidos e, nesse desprendimento, de uma certa forma ausentes. Estamos ausentes de nós mesmos e precisamente nessa medida, estamos totalmente aqui, presentes na situação.
Na prática do rappel de bodhicitta último, não se trata de nos lembrarmos mentalmente dessa experiência mas de aprender a lá voltar de maneira cada vez mais regular e frequente. No entanto, no começo, o rappel conceptual que é uma espécie de etiquetagem semelhante à dos pensamentos em samatha, é uma etapa útil e importante, mesmo necessária.
Um último ponto é que na experiência da transparência há uma qualidade de doçura, uma não- violência. A transparência está em relação com a não-violência fundamental. No que é transparente não há relação violenta, há comunicação, sem choque, sem resistência, sem bloqueio. É uma comunicação que tem um lado muito espontâneo. Entramos na espontaneidade dessa transparência. É a prática de bodhicitta, do coração-espírito desperto, ao nível absoluto na vida quotidiana.

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